domingo, 27 de fevereiro de 2011

Informação: VI Congresso Bienal da Associação de Estudos Mundiais da Diáspora Africana

Todos estão convidados para o VI Congresso Bienal da Associação de Estudos Mundiais da Diáspora Africana (Association for the Study of the Worldwide African Diaspora - ASWAD) que acontecerá de 3 a 6 de novembro de 2011 em Pittsburgh, Pensilvânia, Estados Unidos.
Neste VI Congresso Bienal que acontecerá em Pittsburgh, a ASWAD explora o tema "A Libertação Africana e o Black Power: Os Desafios Encontrados pela Diáspora Através do Tempo, Espaço e Imaginação". Este congresso pretende explorar as dimensões diaspóricas e articulações do Black Power com ênfase especial na África, Europa, Caribe, América Latina e Ásia traçando a genealogia deste conceito e as limitações desafiadoras dos estudos do Black Power.

Informação: Eleição Para o Parlamento do Mercosul



Companheiras e companheiros estamos enviando esse e-mail para submeter a cada um e a cada uma, um tema que está nos aperreando e cremos que ampliando teremos condições de nos orientar e, até, de ajudar a todos, participando efetivamente.

Acabamos de eleger a Comissão Executiva Nacional do MONER – Movimento Negro Republicano do Partido da Republica – PR (11 de novembro passado), a onde fui encaminhado Presidência.

Bem, em 2012 haverá eleições para o ParlaSul – Parlamento do MercoSul.

Até hoje o ParlaSul tem sido composto por Parlamentares dos Parlamentos dos Países membros – Argentina, Brasil, Uruguai e Paraguai, que a partir de indicações indiretas internas (com o mesmo rito das eleições para composição de comissões) são enviados com mandatos de dois anos para o ParlaSul. A partir de 2012 eles serão eleitos, em eleições diretas, em cada um de seus Países. Mas o detalhe é o de que a eleição, “para o ParlaSul”, será me lista, ou seja: Cada partido enviará sua lista dos candidatos so ParlaSul.

http://www2.camara.gov.br/agencia/noticias/RELACOES-EXTERIORES/150845-REPRESENTACAO-DO-BRASIL-NO-PARLASUL-PARA-2011-SERA-DEFINIDA-ATE-DEZEMBRO.html

Bem, como o nosso papo é de Negão e de resgate, estamos imaginando a possibilidade de que em cada eleição, de cada um dos Países membros, considere-se a possibilidade de um representante do Povo Negro. Seria uma espécie de cotas para o ParlaSul, deu pra entender?

Aqui no Brasil nós, que temos militância Partidária, articularemos junto aos nossos Partidos e a nossas bancadas que essa matéria seja votada de modo a contemplar o nosso desejo.

Assim, temos pensado em um organismo que tenha representação “política”(sem ser partidária mas em um sentido bem amplo, claro) na America do Sul? Só pudemos pensar na Aswad - Associação para o Estudo da Diáspora Africano, para nos ajudar nessa construção.

O que vocês acham?

Temos articulado os Movimentos Negros do PR – Partido da República, o PSB e o PMDB. É fácil falarmos com o PT (é a nossa companheira Cida Abreu), com o PC do B e com o PSol, mas para isso seria legal termos uma articulação Internacional com os Países do Mercosul e é aí entraria a Aswad.

Bem, tá aí posta a nossa proposta.

Vocês podem dar uma refletida e responder, Ok?

Vamos em frente.

Um abraço.

Nayt Junior.
Presidente Nacional
Movimento Negro Republicano

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Informação: COMISSÕES TEMÁTICAS REFORÇAM ESTRUTURA DE ATUAÇÃO DO COMPIR


Comissões para promoção da igualdade tem como focos de atuação: desenvolvimento social e econômico Sustentável, racismo institucional, além do enfrentamento da homofobia, intolerância religiosa e da violência contra a juventude negra, cigana e indígena.

A estrutura de atuação do Conselho Municipal de Promoção da Igualdade (Compir) ganhou reforço com a criação de seis comissões temáticas. Plurais, os focos de atuação são: desenvolvimento social e econômico Sustentável, racismo institucional, além do enfrentamento da homofobia, intolerância religiosa e da violência contra a juventude negra, cigana e indígena.

A criação das comissões é resultado de deliberação entre os membros do Compir. O encontro do grupo, que aconteceu hoje, também teve o propósito de traçar um plano de ação. De acordo com o presidente do Compir, Jose Eduardo da Silva, é fundamental neste ano a estruturação de ações em parcerias com entidades de representação de direitos sociais, assim como com "cidadãos interessados em temas importantes para a democracia e para a cidade."

Qualquer cidadão pode participar das comissões temáticas. Para isso, é necessário entrar em contato com o Compir por meio do telefone 3524-2356. "A livre-participação fortalece de forma democrática políticas publicas de promoção da igualdade racial e inaugura um novo momento de participação dos grupos historicamente discriminados."


Saiba mais:
Comissões criadas e respectivos membros:

• Enfrentamento a Homofobia: Marco Aurélio de Oliveira e Jose Eduardo da Silva;
• Enfrentamento a violência contra a juventude negra, cigana e indígena: Prof. Uene Black e Regina Cigana
• Racismo institucional: Sueli Flavia Simone
• Enfrentamento a intolerância Religiosa: Kenio Oliveira Rose
• Desenvolvimento Social e Econômico Sustentável: Jose Eduardo da Silva e Welberg Vinicius
• Promoção a Cultura para a Igualdade Racial: Regina Cigana e Mestre Passarinho.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

...é natal para todos

natal para os famintos
para os desempregados
para os sem larpara os sem laços
para aqueles que papai noel
nunca existiu
que o presente é uma roupa,de pano de guarda chuva,que a vida maltrata
que a enxurrada leva tudo
natal
consome-nos a almade união de família
fecha-nos o vidronos sinais fechados
que desejamos comida,emprego, saúde, casa
que papai noel exista
e venha sempre de saco cheio
que a vida nos abraceo amor aconteça
e se faça paz
é porque é natal

Estátua de Zumbi é pichada antes de conclusão do trabalho de restauração

Menos de uma semana depois de voltar restaurada ao ponto na Praça Onze, no Centro do Rio, a estátua de Zumbi de Palmares amanheceu pichada nesta quinta-feira (18). O monumento foi recolocado na praça no último domingo (14) e a previsão de conclusão do trabalho de restauração estava marcada para sexta-feira (19).
De acordo com a Secretaria de Conservação Serviços Públicos, uma equipe técnica especializada vai ao local ainda nesta manhã para remover as pichações. O objetivo é deixar o monumento livre do vandalismo para as celebrações do Dia Nacional da Consciência Negra, no dia 20.

Fonte: Globo

Para quem gosta.

O Centro de Educação Profissional - Escola de Música de Brasília (CEP-EMB) é uma instituição de ensino básico e técnico mantida pela Secretaria de Estado de Educação(SEE) do Governo do Distrito Federal(GDF) que vem promovendo a formação musical de instrumentistas e cantores demandados pelo mercado de trabalho local, regional e nacional. O CEP-EMB oferece 36 cursos técnicos e 58 cursos básicos de qualificação profissional em todas as modalidades instrumentais e vocais (eruditas e populares). O seu corpo docente é formado por 182 professores e o corpo administrativo por 61 funcionários
O CEP-EMB situa-se geograficamente no Plano Piloto (Asa Sul), mas atende à população do DF e a Região do Entorno. O CEP - EMB, possui uma área física de 41.176,15 m² dos quais 7.158,92 m² correspondem ao total da área construída; distribuídos da seguinte forma: 71 laboratórios de ensino, 9 salas de ambientes administrativos, sala de Direção, Secretarias e 6 espaços complementares (Biblioteca, Instrumentoteca, Musicoteca, Multimeios, Auditório da Supervisão de Regência e o Teatro Levino de Alcântara

O Selo Quilombola

O Selo Quilombola é um certificado de origem, que visa atribuir identidade cultural aos produtos de procedência quilombola...
O Selo Quilombola é um certificado de origem, que visa atribuir identidade cultural aos produtos de procedência quilombola, a partir do resgate histórico dos modos de produção e da relação das comunidades com determinada atividade produtiva na perspectiva de agregar valor étnico aos produtos, contribuindo para a promoção da auto-sustentabilidade dos empreendimentos quilombolas no Brasil. É uma iniciativa articulada e coordenada pela Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR), apoiada por diversos parceiros.O Selo Quilombola será concedido pela SEPPIR, aos núcleos de produção, membros das associações, cooperativas e a pessoas jurídicas que possuam gestão de empreendimentos nos territórios quilombolas., com comunidades certificadas pela Fundação Cultural Palmares. Para autorização de uso do Selo Quilombola, o solicitante deverá comprovar que o produto tem em sua constituição a utilização dos saberes étnico-culturais, o uso da matéria-prima local e práticas de produção sócio-econômicas ambientalmente sustentáveis.Veja a íntegra da Portaria do Selo Quilombola, publicada no DOU de 15/04/2010.
Saiba como solicitar o Selo Quilombola. Instrumentos.
Fonte: http://www.portaldaigualdade.gov.br/selo-quilombola/copy_of_selo-quilombola

Para brasileiros, preço alto é principal obstáculo para acesso à cultura, diz pesquisa do Ipea

Preços altos, barreira social e distância são os grandes fatores responsáveis pela percepção do brasileiro de que o acesso às atividades culturais no país é difícil. É o que indica o Sistema de Indicadores de Percepção Social (SIPS), criado pelo Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) para mostrar como a população enxerga os serviços de utilidade pública e seu grau de importância para a sociedade. Os números divulgados nesta quarta-feira (17) são sobre cultura e justiça.
Os preços altos são obstáculo ao acesso à oferta cultural para 71% dos entrevistados, que acreditam que esse ponto é um importante empecilho para usufruir dos bens culturais. Outra razão apontada como obstáculo foi a barreira social imposta pelo perfil do público que frequenta espaços culturais. Para 56%, há essa barreira.
Além disso, em relação à localização dos equipamentos culturais, 62,6% o percebem como distante do lugar onde moram. Apenas para 35,3% a localização não é um problema significativo. Quanto maior rendimento, maior proximidade e acesso a equipamentos urbanos de cultura e lazer, diz a pesquisa.
O brasileiro ainda se queixa da falta de tempo, mas os números mostram que, caso dispusessem de mais, não optariam por atividades culturais. Para 35,4%, o tempo é insuficiente para fazer tudo o que se desejam. Já 44,9% disseram que o tempo é suficiente, mas que sempre há alguma atividade ainda a ser feita, como compromissos, cuidados com a casa, compras, entre outros. São apenas 18,4% os que percebem ter grande parcela de tempo disponível, mas afirmam não encontrar nada de interessante para preenchê-lo.
Se tivessem mais tempo, os entrevistados disseram que procurariam,em primeiro lugar, fazer cursos (33,3%), seguido de práticas esportivas (16,1%); não fazer nada (15,1%); cuidar dos filhos, da família e da casa (13%). A realização de atividades mais próximas das práticas culturais como estudar, pesquisar e ler foi indicado por apenas 9,9% dos entrevistados; e frequentar espaços culturais e de lazer, por 7,7%. Por fim, a opção de praticar atividades artísticas foi apontada por 3,6%.
Hoje, a maioria dos brasileiros tem como atividade cultural assistir televisão. São 78% os que afirmaram assistir televisão ou DVD todos os dias. Música é outra prática disseminada: 58,8% afirmaram que a frequência da prática é diária, e outros 25,5% ouvem rádio/música pelo menos uma vez por mês.
A frequência é menor para teatro, circo e shows: 59,2% disseram nunca ir e 25,6% afirmaram ir raramente. Apenas 4,2% visitam museus e centros culturais pelo menos uma vez por mês.
O Ipea analisou dados sobre a organização urbana para a prática cultural, com a percepção sobre os espaços verdes, equipamentos culturais e esportivos, comércio e locais de encontro; as disposições culturais para o uso do tempo, com dados sobre o que a população gostaria de fazer no tempo livre; a oferta cultural, com a percepção sobre preço, distância, horários, interesse e público; e a frequência com que a população tem práticas culturais, com a divisão por tipo de atividade.
Segundo o Ipea, o objetivo do novo sistema é permitir ao setor público estruturar as suas ações para uma atuação mais eficaz, de acordo com as demandas da população brasileira. Além dos indicadores de justiça e cultura, haverá, nas próximas edições, percepções sobre segurança pública; serviços para mulheres e de cuidados das crianças; bancos; mobilidade urbana; saúde; educação; e qualificação para o trabalho.
A pesquisa foi feita presencialmente, com visitas aos domicílios. Foram ouvidos 2.770 brasileiros em todos os Estados do país.

Copeira leva cuspe na cara e após sete meses ainda tem sobressaltos

Já se passaram sete meses, mas até hoje a copeira Sônia Maria Gomes de Morais tem sobressaltos e vem recebendo assistência psicológica. Um passageiro do ônibus em que Sônia estava, da linha Circular W-3/L2 Norte, cuspiu no rosto dela e a chamou de “negra safada”. Morador da Asa Norte, 35 anos, Rui* está sendo duplamente acusado de injúria racial, cuja pena é de um a três anos de reclusão, acrescida de multa. A dupla acusação deve-se ao fato de ele ter agredido também o professor de inglês André Luís Gomes Matias, passageiro que se levantou de seu lugar para defender Sônia. “Podia ter sido minha mãe”, diria ele mais tarde. André Luís é negro.
“Foi tudo muito rápido”, conta André. Quando viu o que havia acontecido, ele se aproximou do agressor e reagiu: “Você cuspiu na senhora, xingou ela” e tentou contê-lo. Rui* partiu para cima de André Luís, o chamou de “negro” e perguntou: “Você é deste país?”. Em seguida, pediu ao motorista que parasse o ônibus. “Não abra a porta. Vamos para a delegacia. Isso é crime de racismo”, retrucou o defensor da copeira. O caso levou à 5ª Delegacia de Polícia representantes da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir) e do Conselho de Defesa dos Direitos do Negro do Distrito Federal.O advogado do acusado, Vicente Wilson Ferreira Reis, entrou com um processo de incidente de insanidade mental, que foi anexado à ação penal. A defesa alega que Rui sofre de transtornos psíquicos, toma remédios controlados e que no dia do incidente estava com o comportamento alterado por conta de mudanças recentes na medicação. O juiz da 4ª Vara Criminal, Carlos Pires Soares Neto, determinou que o acusado seja submetido a exame psiquiátrico no Serviço de Psicopatologia Forense do Instituto de Criminalística da Polícia Civil, no início do próximo mês.Mesmo que se confirme que Rui é portador de transtorno mental, a ação penal terá prosseguimento, explica a promotora Danielle Martins Silva, do Núcleo de Direitos Humanos do Ministério Público. Nesse caso, em vez de pena de reclusão, o juiz deverá aplicar medida de segurança, seja a internação ou tratamento médico.Uma outra ação corre na Justiça. O Conselho de Defesa dos Direitos do Negro no Distrito Federal tomou a iniciativa de mover um pedido de indenização por danos morais, calculado em R$ 200 mil.Não é fácil investigar crimes de injúria racial e processar os acusados. “Uma das maiores dificuldades está na invisibilidade da violência praticada, porque o negro ainda não se reconhece na posição de vítima, tal como acontecia com a violência doméstica”, comenta a promotora Danielle Silva. A profundidade da dor de um negro ao ser discriminado é um obstáculo para o cumprimento da lei. “É grande a dificuldade de se transformar essa dor tão íntima — continua a promotora — num instrumento de efetiva mudança de valores, por meio de sentenças judiciais que reconheçam a discriminação racial como um crime que afeta objetivamente a dignidade de todos os cidadãos, e não apenas da vítima.”É sobre essa dor profunda que Sônia Maria vai falar nas linhas abaixo. Por medo, ela não se deixou fotografar por inteiro.Para lerO alufá Rufino, tráfico, escravidão e liberdade no Atlântico Negro(c.1822 - c.1853), de João José Reis, Flávio dos Santos Gomes e Marcus J.M. de Carvalho, Companhia das Letras —Rufino José Maria era fluente em árabe e sabia o Corão e outros textos do islamismo. Foi preso no Recife porque se temia a influência do ex-escravo sobre a comunidade africana. A história de Rufino é a história do tráfico de escravo, da escravidão e do Brasil escravocrata.Meu pai era pedreiro, minha mãe, dona de casa. Eles são de Goiás. Tenho seis irmãos. Sou separada, tenho três filhas minhas e um adotado. Fui criada em Brasília. Tinha 1 ano de idade quando vim pra cá. Sempre morei em Sobradinho. Minha mãe é da minha cor e meu pai era claro. Era uma vida difícil. Meu pai trabalhava, mas bebia muito. Com 7 anos, eu já estava trabalhando de babá, depois de doméstica. Era muito difícil estudar. Parei na 6ª série e, quando quis voltar, depois dos 14 anos, não consegui. Tinha perdido a vontade.Nunca sofri discriminação racial, a não ser em brincadeira. ‘Ah, cabelo ruim’. Me lembro até que quando minha primeira filha nasceu, a mãe do meu ex-marido falou que aquela era a primeira neta de cabelo ruim que ela ia ter. Engraçado que essa minha filha tem o cabelo lisinho. Meu ex-marido é mais escuro do que eu, mas o cabelo dele é liso. Foi um racismo camuflado, né?Digo que nunca sofri preconceito, mas indiretamente sofria. O preconceito não é só racial, é cultural, é de toda espécie. Trabalho em órgão público, sou terceirizada, não tenho vergonha nenhuma disso. Já trabalhei de faxineira, de tudo, e você vê a discriminação em todas as áreas, mas o que eu passei, de maneira tão brutal, jamais imaginei que iria passar.No dia 29 de abril, peguei o Circular L2/W3 Norte, em frente ao Hospital Santa Helena. Comigo entrou uma senhora. Me pareceu que o ônibus estava vazio e que só éramos eu e ela de passageira. Só que tinha um rapaz lá atrás que só fui ver depois.Mais ou menos na altura da 609 Norte, entrou a pessoa que me agrediu. Vi que era um homem todo tatuado. Do jeito que eu estava, continuei. Mais ou menos na altura da 605, ele se levantou de onde estava, parou na minha direção, cuspiu na minha cara, e me chamou de negra safada e veio mais pra perto de mim como se fosse me agredir. A única reação que tive foi fazer assim [passa a mão no rosto, como quem limpa uma sujeira]. Fiquei com muito nojo.Na hora em que ele veio para me agredir, o rapaz que estava atrás se levantou e veio pra cima dele. ‘O que você fez? Você cuspiu na senhora, você xingou ela!’ Aí ele já foi de murro pra cima do André. Foi aquela luta corporal horrível dentro do ônibus. Entrei em estado de choque, paralisei. A senhora que estava comigo no ônibus me puxou: ‘Vamos lá pra frente’. O cara que cuspiu em mim ficava mandando o motorista abrir a porta para ele descer. E o André dizia para o motorista: ‘Você não abre a porta, motorista. Não abre. Você só vai abrir essa porta na delegacia, ele agrediu a senhora, ele cuspiu, ele xingou.’. O André foi o meu anjo, foi Deus quem colocou ele ali pra me defender. Porque se aquele cara me bate, eu não ia ter reação nenhuma. Sabe quando você não entende o que está acontecendo? Fiquei meio passada.Na delegacia [5ª DP], o André falou assim: ‘Não entendo nada de lei, não, mas isso que ele fez foi racismo. Então ele deu uns telefonemas e começou a chegar gente na delegacia, advogado, o pessoal da secretaria [Seppir]. Eu continuava meio passada, não conseguia nem me lembrar do telefone da minha casa. Nesse dia, eu havia esquecido o celular em casa. Fui ficando mais nervosa com tanta gente estranha e eu sem ninguém da minha família. Quando foi umas quatro e meia uma policial disse assim: ‘Dona Sônia, a imprensa está lá fora, a senhora vai querer falar?’. Fiquei apavorada. ‘Não quero falar com ninguém. Só quero sair daqui.’O que ficou mais em mim foi a agressão moral, é uma humilhação muito grande uma pessoa cuspir na sua cara, do nada. Eu não estava fazendo nada com ele, não estava nem olhando para o lado dele. Até hoje, não tenho coragem de pegar o Circular onde eu peguei porque tenho medo de me encontrar com ele. Também não pego mais ônibus vazio. Um dia desses passei um pavor danado porque tive a impressão de ver ele, meu coração acelerou. Logo depois do que aconteceu, eu não conseguia sair sozinha de casa, minha filha mais nova é que saia comigo. Quando eu ia tomar banho para ir pro serviço, me dava aquela angústia, aquele medo. Chorei durante muitos dias. Fiquei muito depressiva, não dormia direito, uma semana, duas semanas eu fiquei assim. Aos poucos, fui superando. Mudei de horário de trabalho e pego outro ônibus. O meu pavor é saber que eu ainda vou ter que olhar pra ele na Justiça.Lá onde eu moro todo mundo me conhece, participo da igreja, sou catequista. As pessoas se revoltaram mais do que eu. Todo mundo ficou solidário a mim. A psicóloga me diz que tenho de tirar uma coisa melhor de tudo isso. E eu mudei muito. Por mais que falassem, eu achava que racismo não acontecia. Achava um absurdo a pessoa discriminar a outra pela cor. Isso mudou a minha visão. Comecei a olhar o ser humano de outra forma. Agora eu sei que existe maldade. Enquanto não acontece com a gente, a gente não quer acreditar. A gente tem que passar ou ver pra crer. A minha ficha caiu.Sempre fui muito quieta. Casei praticamente com o primeiro namorado, e já fui cuidando de casa, já tive as minhas filhas. Me separei depois de doze anos de casamento. Nunca mais namorei, só vivi para as minhas filhas, pra servir a Deus e pra meu trabalho.Eu não sei o que passa pela cabeça dele [do rapaz que a agrediu], o que soube é que a mãe dele disse que ele é esquizofrênico. Penso que se a pessoa tem um problema desses não pode andar sozinha por aí. Se ele estivesse armado, teria matado a gente dentro do ônibus. Então, alguém tem que se responsabilizar. E se ele fez isso é porque alguém plantou isso dentro da cabeça dele.Naquele dia, uma repórter me perguntou qual era o sentimento que eu estava tendo por ele naquele momento. Eu respondi: ‘Agora você não me pergunta isso, porque eu não sei.’ Mas se você me perguntar hoje o que eu tenho por ele, eu respondo: Medo. Não de passar por isso de novo. Eu tenho medo de me encontrar com ele. Mas eu sei que, se eu passar por isso novamente, já vou estar mais preparada. Já sei como reagir. A gente tem que aprender a lutar, a não ficar calado. Então, se isso acontecer comigo de novo, e espero que não aconteça, não vou ficar igual eu fiquei, em estado de choque.Tirei uma força de tudo isso. Se algum dia isso acontecer com alguém perto de mim, eu tentarei defender a pessoa. Não posso me calar. Porque é uma agressão que dói mais do que a física. A física passa na hora e a outra fica aqui dentro.

Fonte: Correio Braziliense